mercredi 2 juillet 2008

Prece poética para olhos de tormenta

Seus olhos reluziam mais que os diamantes ostentosos sustentados por seus dedos marcados pela vida.
Eles eram como duas estrelas perdidas num céu tão negro quanto sua alma que tardava a ver a luz do dia.
Sua vida deixou marcas tão profundas na vida dos que a amavam, quanto aquelas marcas desenhadas pelo peso da noite.
Madrugadas frias, embriagadas de toda a dúvida, comoção, corroída por arrependimentos tão grandes quanto aqueles que sentem os que pagam por eles atrás de grades.
E ela sentia-se tão livre do alto do décimo quinto andar, quanto jamais seria nas poltronas luxuosas do lugar ao qual chamava de lar.
Lar aquele onde não morava seu coração, e sim outro, muito distante dali.
O lar que pariu a ela toda.
Tudo que ela se tornara então, fora fruto do lar do qual sequer se lembrava existir, cuja única lembrança dele eram as marcas que ele deixara.
Pela manhã, abria suas cortinas de veludo vermelho que velavam sua dor, encarava o sol - sua platéia única - e escorregava a mão pelo tão caro veludo que fora tingido com seu próprio sangue.
Representava ele assim, toda sua vida: o que de belo ela possuía fora de si, havia sido pago com cada uma de suas veias que foram arrancadas de uma única vez de seus pulsos já então revestidos de ouro.
E assim ela sorria ao olhar o sol, mesclando uma alegria infantil com a melancolia daqueles que já possuem conhecimento do pouco tempo que lhe resta.
Ela nunca esteve doente, e nisso eu acredito com a força de toda minha vida.
Nasceu já doente sua alma, doente terminal das agruras do mundo, como todos aqueles que não nascem preparados para a vida - e ela não nasceu.
Nos lençóis cheios de sangue, na dor de sua mãe, nos sorrisos de seus irmãos, e na embriaguez de seu pai, ela esculpiu o desenho de tudo aquilo que seria - doente terminal em tentar entender a vida.
Sua paz refugiava-se em repousar entre os desvalidos, nos órfãos, nos fracos, nos que assim como ela, não possuíam colo, que foram amados por desvio.
Por seu seio ela poderia fazer jorrar o leite que amamentaria cada um dos órfãos do mundo e eu acredito ter sido esse seu maior desejo em toda vida: alimentar almas mais desamparadas que a sua.
Suas palavras explosivas, desordenadas e cheias de mágoa procuravam por algo que jamais saberei explicar, mas que no fundo entendo.
Buscava ela, apenas acalmar as tormentas do mar de seu corpo e alma, para impedir que seu coração - um frágil navio - naufragasse lentamente.
Ela era aquela na proa do navio, a que urrava palavras de socorro.
Suas peles com espinho eram um disfarce - agora vejo - pra tudo o que ela realmente queria ser, e era: boa como água límpida para os que morrem de sede.
Não sabia apenas lidar com a seca, com a solidão e a aridez extrema que corroem aqueles que tudo querem entender e não conseguem, nem jamais conseguirão.
Ela era boa e de tanto ser, não conseguia.
Transparecia apenas dor, e sem querer explodia com tudo ao seu redor, pra ver algo desmoronar além dela mesma.
E eu faço assim minha pesada confissão por tanto tempo guardada - que eu a enxergava com os olhos que ela sempre quis - aqueles que ninguém a via.
E no alto do céu para o qual todos os dias ergo meu olhos, falo a ela com toda verdade que há em mim: espero que tenhas encontrado a paz e que saiba que eu sempre a amei.

Aucun commentaire: