Sinto inveja daquelas meninas pálidas, protegidas por vestidos de cetim e meias calças, Com os cabelos expostos ao vento frio que desnuda suas carnes, com os olhos plúmbeos de saudade da casa que nunca tiveram.
Invejo aqueles garotos perdidos em suas dúvidas, em seus jogos infantis e nos seios das moças. Eles distraem-se da ausência de sonhos tombando contra amores vãos, escrevendo cartas e poemas - eles querem aprender a amar.
Acomodo sempre meus ombros, meus pesos, onde quer que possa apoiá-los, porque o ambiente afinal não me faz diferença.
Passeio entre as almas pelas quais não sinto afeto nenhum. Nenhum.
Não saberias explicar se quisesse, mas sou assim desde que me lembro.
Não consigo me afeiçoar.
Mamãe me fazia tortas de morango quando eu era pequeno, e eu agradecia.
Papai me ensinava coisas que um homem deveria saber, e eu agradecia.
Mas eu não os amava.
Apenas sentia-me no dever de os agradecer por me servirem de favores dos quais eu nunca pedi.
Pessoas são como mercadorias caras ou baratas, velhas, novas ou usadas.
O grande problema talvez, seja que as pessoas não tem sentimentos.
Eu não tenho. Eu sei que não tenho.
Sou frio de alma desde que tenho memória suficiente pra me lembrar.
Por isso construo relações simples. Sou complexo demais.
Os desesperadamente medíocres de espírito e intelectualidade tudo complicam, é necessário talvez tentar dar sentido, eu quase posso os entender.
Mas eu sei que as pessoas não são movidas a sentimentos.
Ao menos não da forma que eu posso entender.
Bípedes possuem desejos e essa é a força de atração primeira entre um e outro.
E os desejos nascem dos interesses.
Eu me interessaria em apaixonar-me por uma garota se eu tivesse necessidade de afeto, e buscaria que ela me desse algum, e em troca eu lhe daria também.
Mas como não me afeiçôo por ninguém, também não preciso de afeto, então não sou cortês o suficiente para despertar paixões.
Apenas faço gentilezas as damas para que me cedam uma noite a sós com suas vergonhas a mostra e a serviço.
Certa vez, quase fiquei amigo de meu colega de quarto, porque penso que as vezes seria bom ter alguém pra reclamar por aqui onde tudo me aborrece, mas depois de pesar achei que não valia o esforço.
Outra vez, uma garota se aproximou de mim na aula de latim, com muitas manhas sutis jogando os cabelos para trás e eu já sabia que ela queria algo.
Mas não podia eu ter me calado? poderia ter feito dela uma amiga, uma namorada, quem sabe até uma companheira de noites de solidão sexual.
Eu sempre acabo sentindo nojo, eu não consigo evitar.
Eu nunca enxergo pessoas e sim o que elas querem de mim.
Talvez eu seja desconhecido demais das coisas do mundo.
Eu não sei do que sei, mas acho que tenho certeza que é assim, pois são as verdades que eu conheço.
E afinal de contas, não estou interessado em outras, pois só me serviriam para contato humano que não desejo.
Acho que por ter sido meu irmão abortado, aquele que eu nunca tive e que nada me exigiu, aquele cujos os olhos nunca vi desejos ou dúvidas e que pra mim nada foi além de massa cinza e podre encharcada de sangue, que se eu tivesse alguém a quem poderia amar, teria sido ele, simplesmente pelo fato de que ele nunca foi.
jeudi 8 mai 2008
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